Mostrando postagens com marcador EJA. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador EJA. Mostrar todas as postagens

25.4.12

A ideia das cotas é um reconhecimento do governo de que há diferenças nos modelos educacionais no país, não se trata de afirmar que esta ou aquela etnia não tem capacidade, ao contrário, quando se afirma que todos devem acessar a universidade é justamente afirmar que todos possuem condições de estarem ali. Contudo, o sistema educacional brasileiro produz realidades distintas e é extremamente hipócrita a prática dos vestibulares que sugerem que todos devem disputar as referidas vagas em condições de igualdade, como se todos tivessem tido a mesma formação no ensino fundamental, ou seja, não é a capacidade do indivíduo e sim um reconhecimento que as formações anteriores, à saber: Ensino Fundamental e Ensino Médio não foram iguais. Chega a ser uma prática covarde colocar no mesmo polo de disputa pessoas que tiveram uma formação infinitamente melhor que as outras, não é a capacidade que está em jogo é o preparo ao longo da formação. Certamente, que todos concordam que de uma maneira geral o ideal seria a melhoria do sistema de ensino, porém há uma realidade posta que é o fato do acesso ao sistema de ensino superior público, por conta das condições colocadas, estar majoritariamente ocupado pelos setores mais abastados que frequentaram as melhores escolas e consequentemente no momento da disputa com os jovens que viveram ao longo de suas jornadas escolares uma realidade adversa, estes setores mais abastados produzem os melhores resultados, ainda que saibamos que os jovens que produzem as menores notas mesmo que tenham passado no fatídico vestibular ao produzirem as menores notas ficam fora da Universidade. Portanto, ainda que entendamos que o ensino de uma maneira geral deva melhorar, também sabemos que este processo de cerca de quinhentos anos não irá ser resolvido nas próximas décadas, então fica a pergunta. 
Se os ensinos fundamental e médio não se reformularem nos próximos anos, o que fazer com os jovens que passam no vestibular, mas em função das razões colocadas, ficam fora da Universidade?
Leia mais...

22.9.11

12º Encontro Nacional da EJA acontece em Salvador


12º Encontro Nacional da EJA acontece em Salvador
Brasil, 21 de setembro de 2011
Teve início nesta terça-feira, 20/9, o 12º Encontro Nacional da EJA (ENEJA), em Salvador, com o tema “A educação de jovens e adultos pós CONFINTEA VI: avanços, desafios e estratégias de lutas”. O Encontro foi aberto com a conferência “Educação de Jovens e Adultos: entre o marco da Cidadania e da Emancipação Humana”, proferida pela professora Sônia Maria Rummert, da Universidade Federal Fluminense.

No terceiro dia do Encontro, 22/9, o coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, será expositor de mesa para falar sobre as estratégias de luta da Campanha. A mesa contará com a mediação de Francisco Antonio Alves Rodrigues, do Fórum EJA Ceará.

Os eixos temáticos foram organizados em dez grupos de discussões: formação de professores; financiamento; políticas intersetoriais; Educação no sistema prisional; Educação de pessoas com deficiência; Educação do e no campo; EJA e a relação com o trabalho; agenda territorial; políticas de alfabetização de jovens e adultos; centro de referência e memória de EJA.

O Encontro vai até o dia 23/09, sexta-feira. Veja a programação completa aqui. 
Fonte: Fórum EJA Bahia
Leia mais...

10.6.11

Paulo Freire no sofá

Escultura de Pye Engstron (Estocolmo-Suécia).

"Esta escultura é um sofá. Por favor sentem-se nele um pouquinho! As pessoas que escolhi para figurar nesse trabalho são significativas para mim e representam importantes princípios de nosso tempo. Este sofá é um documento de 1972, momento em que determinei que as pessoas importantes constituiriam o sofá."

Detalhe de Paulo Freire na escultura do sofá.

Personalidades do sofá - da direita para a esquerda:

"PABLO NERUDA - para não nos esquecermos do povo do Chile e de sua luta contra o facismo.

GEORG BORGSTROM - por seu trabalho demonstra-nos que a terra é frágil e que seus recursos não são inesgotáveis.

ANGELA DAVIS - por sua luta contra o racismo.

MAO TSE-TUNG - por ter conduzido a luta do povo da China contra a fome e a humilhação.

SARA LIDMAN - pelo apoio demonstrado ao povo do Vietnã em sua luta contra o imperialismo, através de sua criação literária.

PAULO FREIRE - por haver formulado uma pedagogia a serviço dos oprimidos, uma pedagogia que auxiliará as pessoas na criação de uma nova sociedade.

ELISE OTTESEN-JESEN - por seu trabalho na defesa dos direitos das mulheres de decidirem suas vidas.

ESTAS SETE PESSOAS DEFINEM OS ATORMENTADOS E OS OPRIMIDOS DO MUNDO ".






Leia mais...

9.5.11

Repolitizar os tratos da infância e adolescência populares, por: Miguel G. Arroyo

 Se queremos intervir, pesquisar a infância e a adolescência, devemos elaborar projetos de intervenção com o objetivo de salvar essa infância? Intervir para domesticá-la, intervir para tirá-la da violência, para tirá-la do trabalho? Se queremos mexer nesse mosaico tão rico e nessas redes de intervenção e pesquisa da infância, temos de ir um pouco mais fundo nas questões.
Como vemos a infância-adolescência populares;
Em primeiro lugar temos de ver com muita clareza as representações da infância com que trabalhamos. A infância não é um dado isolado, mas um dado histórico, construído, em torno do qual são construídos imaginários de cada ciência, imaginários da religião, da história, imaginários da escola. Nossos imaginários. Nos aproximamos da infância-adolescência com uma série de imaginários sociais, históricos, culturais, científicos, discursivos, saberes, símbolos profundos. Talvez a infância seja um dos campos em que proliferam os mais desencontrados imaginários. Prestemos atenção para o imaginário com que nos aproximamos da infância em cada um dos projetos sobre educação, saúde, todos eles tão ricos. Com qual imaginário da infância lidam? A infância-adolescência com que esses  projetos trabalham é a popular, sobre a qual recaem imaginários particulares tão fortes, tão pesados, tão constantes, tão reproduzidos. No discurso dos saberes na academia, nas ciências e nas instituições, há um imaginário específico sobre a infância popular. Um ponto para o nosso debate: qual o olhar, o imaginário específico com que nossa sociedade e as ciências, até a pedagogia, os projetos socioeducativos vem a infância-dolescência populares?
Não há dúvida de que esses imaginários da infância tão românticos, tão romanceados, não correspondem à infância dura, violentada, agressiva, à infância que nos amedronta e cuja sobrevivência é precária, à infância que morre nos milhões de AIDS, desnutrição. Isso não tem nada de romântico. Vejam as infâncias morrendo, como na Áfric Ou como no Nordeste brasileiro, nas favelas. Vejam a adolescência popular
exterminada nos fins de semana. O imaginário da infância popular participa entre nós do imaginário do povo, do imaginário social brasileiro, um imaginári nada positivo, pelo contrário, muito negativo.
O imaginário das elites desse país em relação ao povo é um imaginário pesadíssimo. O povo é visto como a massa dos ignorantes, dos incultos, dos tradicioanis, os atolados de valores tradicionais e não modernos e não modernizados. Essa é a imagem do povo e da infância-adolescência popular que participa desse povo. Não é à toa que, se vamos pela rua e vemos um  grupo de crianças e adolescentes pobres, negros que se aproximam de nosso carro, fechamos rapidamente o vidro. Quando os coletivos indígenas, do campo, favelados reivindicam terra, teto a mídia caracteriza suas lutas como desordem.
Há um imaginário terrivelmente pesado sobre a infância popular e sobre o povo, sobre a nossa infância-adolescência tão violentada. A pergunta me parece importantíssima: com que imagens trabalhamos? Esse é o primeiro ponto que destacaria para o debate, extremamente importante.
A infância-adolescência – produção histórica-contextualizada
O segundo ponto que me parece muito importante é mostrar que a infância é uma construção. Quais as condições de produção da infância. A infância não é um dado que se repete. Se olharmos para ela como um dado biológico, sim, toda criança nasce igual, mas olhar a infância como um dado biológico nos
levaria a uma naturalização da infância.
A infância é uma construção histórica, cultural, ideológica. Há um discurso construído sobre infância. A infância é uma construção, esse dado é muito importante(grifo meu). No texto, “A construção social da infância”, publicado na revista do MEC, chamava a atenção para como evitar a naturalização da infância. A escola tem uma visão muito naturalista da infância, muito pouco histórica, e isso traz conseqüências muito sérias. A pergunta deve ser esta: em que momento estamos na construção da infância? Em que momento histórico? Não é só ver a infância como uma construção histórica, o importante é que Ela se constrói diferentemente a cada momento histórico e em cada coletivo social. A infância é um dos campos em que mais se vê esse processo de produção. A mulher é uma produção, os filhos, o neto, uma produção, a juventude é uma produção, são produções históricas que, de tão naturalizadas, já nos custa vê-las como produções históricas. No caso da infância, todas as metáforas naturalizam-na como: infância-flor, infância-terra, infância-árvore, infância-primavera, infâncias naturalizadas nas metáforas da natureza. Metáforas que naturalizam a pedagogia escolar, toda a pedagogia, toda intervenção pedagógica da infância. Na infância-terra somos os jardineiros que cultivam a terra, na infância-flor somos os jardineiros que cultivam a flor, se
a infância é um fio com que tecemos vidas, somos tecedores desses fios.
Metáforas arraigadas que teremos de interrogar e desnaturalizar. Cada um de nós trabalha nesses projetos de infância com uma visão naturalizada da infância, estática? Ou com uma visão histórica de sua produção em contextos concretos, específicos?
Se reconhecemos a infância como produção histórica se impõe a pergunta: em que contextos se produz a infância com que vocês trabalham?
A produção da infância não é algo homogêneo, mas algo muito diversificado, e é isso que produz tantas infâncias, porque produzidas em contextos sociais, econômicos, culturais, políticos, discursivos completamente diferentes. Não é pedagógico querer que todas as infâncias entrem no mesmo padrão. A escola tem uma medida única de infância. Quem não entra vai ser catalogado sempre como anormal, na visão escolar da infância que temos.
A escola é um dos contextos produtores da infância, mas também negadores da diversidade. Ela é mais destrutiva da diversidade da infância do que a família. A família é regida mais pelo carinho, pelo respeito às diferenças. Se a mãe tem de quatro a seis filhos, sabe tratar cada um de maneira diferente. A escola é incapaz disso. Tem trinta e tantos milhões de crianças e adolescentes, todos têm de ser encaixados no mesmo molde. A escola tem dificuldade em reconhecer a diversidade, classifica, hierarquiza em
um padrão único. Se essa criança não tem uma cabeça para as letras, se a outra não tem uma cabeça para a matemática, se não tem uma cabeça para a gramática, conseqüentemente é reprovada, defasada, desacelerada em função do ritmo, padrão único de aprendizagem. A pergunta que temos de fazer é, historicamente, esta: que infância as ciências, a pedagogia, os projetos produzem? Normalmente se diz que é a família que produz a infância. A sociedade, a escola, as ciências responsabilizam exclusivamente a família pela produção da infância. Há diretoras e diretores de escola, educadores(as) de Redes que não aceitam
essa infância real por violenta, indisciplinada, burra, desacelerada. O argumento que se coloca em muitas das reuniões de que participo junto com as famílias nas escolas é sempre o mesmo: a culpa é da família, que não
educa as crianças. Uma visão simplista e irresponsável. Há uma diversidade de instituições que constroem a infância.
A pergunta que temos de colocar-nos neste momento histórico é: quem produz? Quais as agências, ciências e instituições que produzem a infância? E que infâncias produzem? Qual o peso da sociedade na destruição da infância? Entre essas agências que produzem a infância, sempre se mencionam a família, a escola. Seriam elas as principais produtoras da infância? A maior parte de vocês que trabalham nesses projetos não trabalha na escola. Qual é o peso na produção da infância dessa quantidade de projetos que hoje surgem
focados na infância-adolescência? Essa é uma pergunta importante. ONGs são agências não vinculadas à família, nem à escola ou ao Estado, qual é o peso desses outros sujeitos, dessas outras instituições na produção da infância? Estão produzindo outra infância diferente da produzida pela família e pela
escola?
Como acompanhar a produção-destruição da infância-adolescência populares? Há profissionais e espaços de produção da infância popular que não passam pela escola e que possivelmente são tão definidores da infância, tão socializadores, tão marcantes quanto a escola. Com que pedagogia? Com que visão da infância popular? Precisamos rever radicalmente o trabalho que se faz com essa infância a partir desses lugares. Normalmente o trabalho que se faz é o de samaritanos, de cuidar de feridas, de curar o entortado, de cuidar de delinqüentes, de crianças de rua, de cuidar também para que a escola não as prenda durante 24 horas e
as deixe algumas horas conosco? Somos uma espécie que trabalha com infância como se fossemos – vou falar uma palavra um pouco dura –recicladores de lixo humano, de lixo infantil? Diria que para trabalhar com essa infância precisamos de habilidades e de artes de educar muito mais difíceis do que para trabalhar na escola. Estou defendendo que se pesquise mais o papel desses projetos e desses organismos. Que se pesquise mais sobre qual seria o perfil pedagógico mais apropriado para dar conta de situações tão extremas, tão no limite. Não é suficiente a formação como enfermeira, como assistente social. Não é suficiente inclusive a extensão na universidade. Trata-se muito mais de reconstruir um perfil que ultrapasse a concepção de extensão. É um trabalho transdisciplinar, mais do que interdisciplinar, porque a infância não cabe em disciplinas, nem na pedagogia, nem na assistência social, nem na psicologia. A infância como todo tempo de formação é total. Uma infância quebrada, uma infância deteriorada, desumanizada, porque sua humanidade foi roubada, exige um profissional transdisciplinar, porque as questões da dor, do sofrimento, da miséria e da vivência no limite não encontram disciplina em nossa universidade, não há disciplinas que tratam da morte, que tratam da dor humana e menos da infância. Poderíamos dizer que há um distanciamento entre a formação recebida na docência e a infância-adolescência popular com trabalho na extensão e nas escolas. Há uma tensão cada vez mais explícita. Numa reunião para construir um projeto político-pedagógico da rede, os diretores pediram autonomia sobre os recursos, os professores, salários, os funcionários melhores condições na cozinha, na limpeza. Quanto às famílias, pediram segurança pra seus filhos.não escola de qualidade, falaram em segurança: “Vivemos na favela, vivemos ameaçados, nossos filhos raptados, nossas filhas ameaçadas. Segurança para nossos filhos, na porta da escola, da escola até a favela. Queremos segurança e alimentação na chegada,no recreio e antes de voltar para casa”. Os professores reagiram: mas o que é a escola? A escola é para ensinar. Nossos pratos são de conhecimento. Um debate tenso entre as famílias e os professores. Chegaram os alunos, dois alunos negros, um adolescente e uma adolescente. A secretária me falou: “Vivem na favela mais violenta da região”. Eles colocaram duas coisas: “Vocês chegam tarde” e nós esperamos. Quando  chegamos atrasados e o portão está fechado, nunca nos perguntam onde e o que estávamos fazendo, porque chegamos atrasados. Estamos buscando comida, estamos trabalhando, fazemos tudo para ir à escola, mas isso não  importa? Nos ensinam muitas coisas muito boas, mas não nos ensinam porque nossos pais têm de sair de casa para buscar trabalho e não encontram emprego. Porque nossas mães saem muito cedo a procura de comida para nós, por que nossos colegas morrem a cada fim de semana, por que nossas colegas se prostituem para sobreviver. Vocês não têm explicação para isso? Lembro-me que uma professora disse: “Mas nós trabalhamos com a vida, com as ciências, não trabalhamos com a morte”. Aquilo me chocou profundamente, realmente a morte, a pobreza, o sofrimento não cabe em nenhuma disciplina.não há lugar para infâncias que sofrem. Como formar educadores capazes de trabalhar com crianças e adolescentes que vivem ameaçados de morte, na miséria, na rua, na violência, cada hora, cada dia?
Em uma escola da favela, quando fazem a chamada na segunda-feira, os alunos falam: “Professora, esse não volta mais”, morreu no fim de semana. Formas reais de viver a infância, adolescência e a juventude. Uma realidade que extrapola a infância e a história da infância. Extrapola a escola, a pedagogia, a docência. Uma realidade ausente nos cursos de formação da universidade.
E quais são os mecanismos de destruição, não só de produção da infância? A infância é intencionalmente destruída, as adolescências também, há um genocídio da infância e da adolescência populares. Isso não pode estar na categoria de produção da infância, temos de trabalhar outras categorias. Cuidado com a retomada de visões românticas. Numa revista dedicada à educação e à infância li: “A infância sem voz nem verbo, essa já era, agora a infância é sujeito pleno de direitos, de cidadania, de autonomia”. Eu me perguntava: em que país? No nosso? Que infância? A popular? Dizer que nossa infância é um sujeito com voz, é um sujeito com autonomia não interessa a infância real sem liberdade de escolha, sem horizontes, nos limites do viver. A autonomia ou proteção? Se a infância é autônoma e não precisa mais de proteção, do Estado, da escola, não temos mais de proteger a infância. Enfim, essas são as questões surreais que nos coloca a retomada de visões românticas. A infância depende da família? Olha, nas pesquisas que faço, uma
das coisas mais fortes da infância é o peso da família.
Vocês viram na apresentação sobre os direitos no ECA, todas as crianças falavam da família. E não só essas crianças, você pega um jogador como Ronaldo, Ronaldinho, Reginaldo, todos eles vão falar da família, mais da mãe. A figura da mãe é algo tão forte na construção da infância, da adolescência, da juventude e da vida adulta, popular. Deve-se ter um pouco mais de atenção ainda ao peso formador da família e de todo trabalho. Por que a figura da mãe é tão forte? Porque representa a proteção em contextos sociais espaciais de desproteção.
Uma professora de teatro na escola de uma favela fez em sua pesquisa exatamente isso. Deixou que as crianças elaborassem peças de teatro sobre sua vida de criança e a família. Ficava tudo muito claro: a visão negativa do pai, as visões negativas dos irmãos, que talvez os levassem para a droga, mas a visão extremamente positiva da mãe. E sempre falavam do medo de que a mãe ficasse zangada. Ou seja, a figura da mãe parece um símbolo de moralidade. Na hora de beber ou se drogar é a lembrança da mãe que fica
muito forte. Então, às vezes jovem levava dinheiro da droga para a própria mãe, mas falava: “Minha mãe de jeito nenhum pode saber que isso vem da  droga”.
Todo um imaginário ético dessa infância vai se construindo, tendo  como referente ético a figura da mãe. Infância-adolescência populares entre o trato moralizante e seu reconhecimento como sujeitos de direitos
A construção ética da infância, por que menciono isso? Porque uma coisa que me surpreende muito no meu trato com os professores e assistentes sociais é que normalmente a escola não trabalha com a ética. Trabalha com conhecimento,supondo que uma pessoa esclarecida será bem moderna e tomará decisões éticas corretas e com uma mente formada que dirige o comportamento ético. Mas no momento em que chegam à escola crianças drogadas, violentas, a escola tinha de colocar as questões éticas. Uma professora me falava: “Durante muito tempo me preocupei com os alunos com problemas de aprendizagem; ultimamente tenho me preocupado com os alunos com problemas de conduta”. E gostaria que isso fosse colocado no debate também ao final da nossa intervenção. Espera-se sobretudo que os moralizemos, porque o diagnóstico que se faz da infância popular é que eticamente está um desastre. É violenta, é drogada, prostitui-se, está destruída moralmente. Essa é a análise que se faz.
Conseqüentemente tem de haver toda uma espécie de movimento de recuperação dos valores mais elementares da infância e da adolescência.

                "O ECA tenta colocar a infância no campo dos direitos,
conseqüentemente no campo da esfera pública,
mas não é fácil, talvez seja um dos pontos mais
delicados."

A visão romântica da infância como anjinho, pura, flor se quebrou. De uma imagem angelical passamos a uma imagem diabólica-imoral. No livro Imagens quebradas trato exatamente dessa questão.essas palavras imagens quebradas foram de uma professora dizendo que a imagem que tinha da infância era “vidro e se quebrou e o amor que tu me destes...”  E um professor que estava ao lado completou: “Quando as imagens da infância se quebram, o que acontecerá com nossas imagens de educadores e de docentes?” Imagens quebradas, também da docência, nossas, da pedagogia. Quando a imagem da infância se quebra, quebra-se de alguma forma a imagem da sociedade. Estamos em tempos em que a sociedade não merece
sua infância-adolescência De alguma forma a sociedade vem construindo suas auto-imagens. A partir da
imagem da infância, a família constrói sua auto-imagem. A imagem que temos da família é em função da infância. Como a imagem nossa de educadores(as) se reflete no espelho da infância-adolescência. A imagem da mulher está colada com a imagem da infância. Já a imagem patriarcal do macho não está tão colada à infância. A construção da infância popular está associada à autoimagem da sociedade, das instituições, das políticas do Estado, do Estado paterno, o Estado pai dos pobres, o Estado-previdência. Imagens da creche, da escola, e até da universidade, da Extensão. Muitas auto-imagens salvadoras, educadoras de ONGs e de seus coletivos de educadores, se vem no espelho da infância-adolescência populares. Isso leva a questões. Suspeito de que muitas das ações sobre a infância, sejam da extensão, sejam de ONGs, no fundo caem na armadilha da sociedade. Qual sua função social-educativa? Moralizar essa infância, a infância popular tão quebrada moralmente? Vamos nos prestar a isso? Vamosreforçar a imagem da infância quebrada moralmente? Vamos cair no moralismo de nossas elites? Desde onde ver e comprometer-nos com a infânciaadolescência? Entramos na relação entre a esfera pública e a esfera privada. A infância se escoa fundamentalmente na esfera privada, doméstica e familiar.
 O ECA tenta colocar a infância no campo dos direitos, conseqüentemente no campo da esfera pública, mas não é fácil, talvez seja um dos pontos mais delicados. Por quê? Porque a esfera privada ainda é vista como a esfera do não direito, a esfera pública como a esfera dos direitos, da justiça. A esfera privada é a esfera do cuidado, da proteção, do carinho, da dedicação. Infelizmente não reconhecidas como direitos. O macho está na esfera pública, a mulher está na esfera privada, a maternidade na esfera privada e não na pública, assim como o amor e o direito ao corpo. O movimento feminista tenta colocar na esfera pública o corpo, a maternidade, o cuidado, mas como? E a infância na esfera pública? Uma alternativa podia ser como o ECA tentou fazer reconhecer a infânciaadolescência como tempos de direitos plenos. Esses avanços merecem ser incorporados nos tratos com a infânciaadolescência. Não faz parte de nossas políticas sócio-educativas reconhecê-las e tratá-las como sujeitos plenos de direitos. Na tradição pedagógica o direito à educação só começava aos sete anos. Conseqüentemente o Estado somente sentia-se obrigado de educar, oferecer centros de educação a partir dos sete anos. Essa visão tão excludente relegou a infância à esfera privada, materna. Nesse vazio da responsabilidade do Estado, entram a filantropia, as creches comunitárias, a pastoral da infância, as ONGs para a infância.Como ocupar esses vazios sem reforçar a desobrigação do Estado? Como fazer avançar desde Redes privadas o reconhecimento da infânciaadolescência como tempo pleno de direitos e de dever público, de políticas de Estado? Por aí os tratos da infância-adolescência populares serão repolitizados. Todo trabalho com os coletivos populares será político, não há lugar para piedosas neutralidades. Porque as relações sociais em que os tratos do povo se enredaram sempre fizeram parte de uma relação política de dominação-subordinação, de regulação-controle-libertação-emancipação. Onde ficam programas socioeducativos da infância-adolescência populares nessa persistente relação política?


Miguel G. Arroyo
é mestre em Ciência Política e
Doutor em Educação.



Leia mais...

6.5.11

Censo aponta que 14 milhões de brasileiros acima dos 15 anos são analfabetos


Em pensar que um dia a EJA foi pensada como um projeto com data prevista para terminar...

Maioria da população que não sabe ler ou escrever encontra-se no Nordeste

Dados do Censo 2010 divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgados nesta sexta-feira revelam um retrato nada agradável para a educação brasileira. Segundo o IBGE, 14 milhões de pessoas com 15 anos ou mais são analfabetos. Estes dados revelam o quanto a formatação atual da Educação brasileira, não é capaz de superar as adversidades historicamente produzidas aos setores mais empobrecidos de nossa população. Decerto, que este número não é responsabilidade somente do modelo educacional em curso, contudo este poderia ter dado uma resposta mais satisfatória, desde que houvesse uma intencionalidade nesta direção. Aqui não se trata de culpabilizar o professorado por não ter formulado uma ação pedagógica capaz de reverter sete quadro, ao contrário, se há números satisfatórios em nossa educação, provavelmente estes se devem, em parte, ao esforço heróico de meia dúzia destes profissionais que dão nó em pingo d’água. Estou falando da formulação pedagógica, falo do modelo de nossa educação, a quem esta serve? Qual sua intencionalidade? Certamente, que me dirijo ao que venho chamando de traço Pombalino da Educação, ou seja, a educação deve ser aristocrática pensada para atender aos nobres da côrte, esta total falta de desejo de estabelecer uma educação voltada para os  setores menos favorecidos viria produzir o atual quadro que ora comentamos. Como reverter esta lógica? Certamente, que a atual perspectiva educacional no Brasil não caminha para esta mudança, logo aos que não alcançam os números satisfatórios: Estes, ao contrário serão culpados pela sua incapacidade.
A maioria da população que não sabe ler ou escrever encontra-se no Nordeste, que detém 53,3% (7,43 milhões) dos analfabetos do país. Em 2000, a região concentrava 51,4%. Já a região Centro-Oeste concentra a taxa mais baixa de analfabetismo, com 5,5%. Entre 2000 e 2010 houve aumento de 0,1% no índice.
Todos os estados do país,com exceção de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, apresentam taxa de analfabetismo que supera 10%. A pior entre elas é Alagoas, que aparece em primeiro na lista, com 38,6% da população rural com 15 anos ou mais não sabe ler nem escrever, enquanto 19,58% da população das áreas urbanas também é analfabeta. Importante destacar que independente das relações que possam estar implícitas nestes dados, mais uma vez, encontramos Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Uma luz no fim do túnel;
Se comparado com o resultado do último Censo, realizado em 2000, houve queda de quatro pontos percentuais (13,6% de analfabetos em 2000 contra 9,6% em 2010). Mas a taxa ainda é longe de ser considerada ideal.

O desafio, portanto é potencializar esta mudança, valorar este cenário de avanço na diminuição das taxas de analfabetismo.
Construir um novo país é pensar em Immanuel Kant, quando este disse;
A Educação deve ser hoje melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje.







Leia mais...

1.5.11

Como tudo começou - PARTE II

 -
Da Republica até 1964,
Aqui neste conjunto de textos, que estou chamando de - COMO TUDO COMEÇOU - PARTE I - pretendo trazer um pouco do histórico da Educação no Brasil. Certamente, que a brevidade deste espaço não me permite aprofundar esta descrição, nem tampouco o aprofundamento acerca das reflexões que aqui surgem. Contudo, creio que este texto possa dar pistas das razões da composição do modelo educacional que ora encontramos no Brasil. Posteriormente darei prosseguimento com a Parte III.

• A PRIMEIRA METADO DO SÉCULO XX

Período Republicano inicia com intensa movimentação ideológica, o que torna o processo educacional centro dos grandes debates políticos do país. O novo modelo republicano parecia indicar a necessidade de rumos diferenciados de ações e a maior participação da sociedade. Os educadores se mobilizavam. Surge o movimento dos PIONEIROS DA EDUCAÇÃO NOVA, que postulava a educação como recurso para a modificação da estrutura social vigente. Contudo, neste momento o debate não se centrava em questões que hoje entendemos como centrais, tais como; a Educação de Jovens e Adultos. Ainda assim, o momento foi muito propício para o despertar do problema da escolarização. Veja o que diz Nagle, examinando esse período:
Neste sentido, percebe-se que os novos movimentos e as concepções educacionais dessa Primeira República vão subsidiar as ações dos períodos posteriores. Elas vão sustentar as teses de extensão das oportunidades educacionais a toda a população, que se fazem mais nítidas no final dos anos 50 e início dos anos 60. A este processo chamo de encadeamento das idéias que permeia a Educação, ou seja, se por um lado temos até hoje traços pombalinos em nosso sistema educacional, também é correto afirmar que também temos um tensionamento na direção de movimentos como os Pioneiros da Educação Nova.

• CENTRALIZAÇÃO, DESCENTRALIZAÇÃO – OS DEBATES CONTINUAM

Vimos que o Período Republicano inicia com grandes debates político-educacionais. Sem dúvida, agora já estamos no período referente à Constituição de 1891. Ela marca o início do sistema federativo da descentralização do ensino no Brasil. Nos aspectos educacionais, observam-se poucos avanços.  Nela, até o princípio da gratuidade do ensino foi omitido. À União cabia criar e administrar o Ensino Superior e estabelecer instituições de Ensino Secundário nos estados; ainda com a União ficava também a responsabilidade da Educação, em todos os níveis, no Distrito Federal. Os estados deveriam criar e administrar o ensino básico para crianças e adultos, e o profissional. Importante saber que à época o ensino profissional era representado pelas escolas normais para moças e escolas técnicas para rapazes, já nesta época insuficientes e precárias, ou seja, aí novamente percebemos um encadeamento na história da Educação, na intencionalidade desta Educação. A quem ela servia? A quem se destinava?
Essa delegação de poderes em nada veio beneficiar o sistema. Os estados, além de enfrentarem interesses sociais conflitantes, não tinham condições técnicas e financeiras para estruturar um sistema eficiente. O sistema educacional não respondia aos anseios dos diferentes estratos sociais, todos em busca da escola. Veja o que diz Ghiraldelli, fazendo uma análise do início da República: ‘A reorganização do Estado devido ao advento da República, assim como a urbanização do país, foram fatores decisivos para a criação de novas necessidades para a população o que possibilitou que a escolarização aparecesse como meta almejada pelas famílias que viam nas carreiras burocráticas e intelectuais um caminho mais promissor para seus filhos’ (1990, p. 16).
A pressão por escolarização, vinda sobretudo da classe média, levou o poder constituído a implementar várias reformas no plano federal. Essas reformas educacionais tentavam organizar o ensino e melhorar a situação deficiente da escola básica.

Conheça algumas dessas reformas.

1) A reforma de Benjamim Constant (1891), de influência POSITIVISTA, estabelecia a liberdade, a laicidade e a gratuidade da escola primária. Introduzia disciplinas científicas no currículo. Essa reforma não chegou a ser efetivada na sua totalidade. Faltou infra-estrutura organizativa nos estados e apoio político das elites, preocupadas com a quebra do currículo acadêmico.

2) A reforma de Rivadávia Corrêa (1911), que propunha total liberdade dos estabelecimentos escolares, desoficializando o ensino, com conseqüências muito negativas.

3) Alguns anos depois, foi a vez da reforma de Carlos Maximiliano (1915), que corrigiu a anterior, voltando a oficializar o ensino. Contudo, essa reforma tinha tendência elitista e preocupação com o Ensino Superior.

4) Finalmente, a Rocha Vaz (1925) regulamentou o ensino, criando um acordo entre Governo Federal e estados para o desenvolvimento da Educação Primária, o que representou uma razoável melhoria nesse sistema. Entretanto, para Romanelli, essas reformas foram tentativas frustradas e produziram pouco efeito prático.

Portanto, estas teses republicanas, baseadas na democracia, no espírito federalista e na Educação Popular, com extensão da escola elementar para o povo, não se concretizaram. Tal qual a nossa situação atual, a cada dia aumentava a massa dos desescolarizados, este quadro tinha como provável causa a relação socioeconômica que historicamente favoreceu os seguimentos mais elitizados da sociedade brasileira, o resultado prático é que as crianças, naquele momento e os jovens e adultos em um futuro bem próximo, compunham o grupo dos que não eram atendidos pela Educação no Brasil.


• O DEBATE, O SILÊNCIO E O RESSURGIR DE IDÉIAS

Nota-se que o movimento dos Pioneiros da Educação Nova foi um marco importante na educação de nosso país. É preciso lembrar que os processos de industrialização e urbanização começaram a ser sentidos com mais vigor a partir dos anos 20, criando certa ebulição cultural. O clima de entusiasmo chegou a todos os setores, especialmente ao educacional. Você, entretanto, deve estar se perguntando em que consistia esse movimento. Bem, tratava-se da crença de que, pela educação escolar, levar-se-ia o país ao progresso e à criação de um novo homem. Era a busca de inovações que substituíssem as velhas bases do ensino, tanto nas concepções como nos conteúdos e métodos. Apesar da influência norte-americana, o movimento tinha sentido nacionalista e caráter salvacionista, ou seja, a escola era a solução para todos os problemas sociais. Falava-se de uma escola integral, que fosse capaz de desenvolver a observação e o raciocínio, adaptando-se às peculiaridades de cada região. Do Movimento dos Pioneiros surgiu um manifesto que foi um marco na educação brasileira. O Manifesto dos Pioneiros, de 1932, é um documento de grande valor histórico; nele, educadores combatem a escola elitista e tradicional, pregam a laicidade e a gratuidade da educação e defendem um ensino público e obrigatório, em âmbito nacional. Vejamos algumas análises sobre o período. Diz-se que, apesar da intensa mobilização dos educadores, de campanhas de erradicação do analfabetismo, da participação do proletariado urbano e da difusão de modernas teorias educacionais, as mudanças foram pouco sentidas e sem continuidade. Menos de um terço da população estava na escola! As escolas secundárias eram elitistas e restava ao jovem das classes populares o ensino profissional. Em meio a essa ebulição, chegamos à Revolução de 1930. A Revolução de 1930 levou Getúlio Vargas ao poder e marcou uma reformulação na sociedade política, havendo, de início, boa convivência das correntes inovadoras com o poder constituído. Podemos começar pela Constituição. Nos aspectos educacionais, foi conciliadora: encaminhou uma política de Educação e propôs o Plano Nacional de Educação, que deveria normatizar o ensino e definir responsabilidades entre os poderes. Se você se detiver na leitura desse documento legal, vai observar que vários temas nele legitimados eram foco dos debates dos educadores progressistas – Educação como direito de todos; liberdade de ensino em todos os graus; Ensino Primário extensivo aos adultos, gratuito e obrigatório; financiamento para a Educação. Mas... veio a modificação do regime político do país. Alguns avanços promovidos pela Constituição de 1934 foram cortados pelo Golpe de Estado de 1937 e pela nova Constituição, do mesmo ano. Esse novo documento legal, produzido por tecnocratas, era centralizador: manteve gratuidade e obrigatoriedade do ensino primário, mas, textualmente, deu ênfase ao ensino pré-vocacional e profissional, direcionado às classes menos favorecidas. Desse modo, ficou fortalecida a concepção de que a educação das classes populares deve encaminhar-se ao sistema produtivo e ser dele dependente.
No chamado ESTADO NOVO de Getúlio (1937 a 1945), apesar do fechamento político, algumas medidas abriram espaços para a Educação de Adultos. Criou-se um fundo chamado Fundo Nacional do Ensino
Primário. Veja você que avanço! O recurso desse fundo também dava cobertura ao Ensino Supletivo de Adolescentes e Adultos. Resultou que, em alguns estados, a oferta de cursos para esse segmento populacional foi ampliada. Naturalmente, havia a preocupação de melhoria da escolarização,
para favorecer o engajamento nos postos de trabalho da indústria e do comércio, em franca expansão. Contudo, a medida privilegiou o jovem e o adulto que estavam fora do sistema educacional.
Você vai sentir que, mesmo sendo um Estado ditatorial, havia preocupação com a Educação e com o ensino. Não era apenas pela visão populista do governante, mas também pela influência de educadores cooptados pelo sistema. No período do Estado Novo, foram decretadas reformas nos diferentes ramos de ensino, conhecidas como REFORMAS CAPANEMA. Essas reformas, nem todas realizadas na gestão Vargas, tentavam normatizar o sistema educacional, dando estruturas próprias ao Ensino Industrial, ao Comercial, ao Secundário, ao Primário, ao Normal e ao Agrícola. Historicamente, foi a reforma mais abrangente feita até aquele momento. Formais e centralizadoras, com certeza, mas altamente organizativas.

• A VISÃO TECNICISTA NA EDUCAÇÃO, NÃO É DE HOJE...

Nesse período, havia certa pressão dos setores produtivos pela definição de políticas educacionais para formação de mão-de-obra. Assim surgiu o Senai, em 1942, e mais tarde o Senac, em 1946, que abrigariam grande parte de jovens e adultos com baixa escolaridade, atendidos em cursos rápidos e direcionados a uma ocupação específica. Aqui é facilmente verificável que há uma escolha em relação ao papel da Educação, pois o sistema dual permanece – educação propedêutica para a classe favorecida e formação profissional para a classe popular. Ao pobre a direção do guindaste, ao abastado a formação para a vida.
Ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) a conseqüente deposição de Vargas fez ressurgir as forças progressistas. Passa-se a reforçar a idéia de que a Educação, inclusive a de adultos, era a base para o desenvolvimento. Surgiram movimentos populares – comitês e associações de bairros que organizavam cursos de alfabetização de adultos e cursos profissionalizantes.
Eram movimentos encabeçados principalmente pelo Partido Comunista que haviam sido paralisados pela volta do partido à ilegalidade. Mas ainda no que tange ao que chamo de tensionamento da Educação, convém informar outros avanços. No plano internacional surge a UNESCO, que deu ênfase especial à educação de adultos, este é um dado importantíssimo, ou seja, a efetivação de uma educação voltada aos Adultos. Isso forçou maior preocupação com essa educação e a instituição de um campo teórico-conceitual para esse tema. No plano nacional, é importante fazer alguns registros. O primeiro deles é o da Constituição de 1946. Por essa Constituição, a União deveria fixar as Diretrizes e Bases da Educação. Isso gerou amplos debates. Surgiram campanhas em defesa da escola pública e da Educação popular, porém poucas conquistas foram sentidas de imediato. No Ministério de Educação criou-se, em 1947, um serviço destinado especificamente à Educação de Adultos (SEA) que promoveu um movimento denominado Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos. Visava-se, num primeiro momento, à alfabetização seguida de curso primário condensado em dois períodos de sete meses. A campanha tomou vulto nos estados e municípios, garantindo a criação de uma estrutura supletiva por quase uma década. Chegamos, como você observou, ao término desse período com alguns avanços. A sociedade, impregnada do espírito democrático, vai favorecer, do final dos anos 50 ao início dos anos 60, o momento de maior expressão na Educação de Jovens e Adultos.

• DA DITADURA À NOVA REPÚBLICA – O PERÍODO 1960/1980

Estamos agora nos “agitados” anos 60 – época de profundas transformações no Brasil e n/o mundo. Internacionalmente, os Beatles faziam sucesso e eletrizavam multidões. As mulheres, em sua luta contra a opressão masculina, passaram a contar com a pílula anticoncepcional, questionavam a dependência ao casamento, a liberdade de expressão dentre outras questões. Os estudantes se manifestaram pelas ruas de Paris. A Guerra Fria, resultado das divergências entre americanos e russos, ameaçava o planeta. E, além de tudo isso, como você teve a oportunidade de assistir inúmeras vezes em filmes, documentários, matérias jornalísticas jovens de ambos os lados perdiam suas vidas no Vietnã. Diante de tudo isso, você certamente deve estar se perguntando: E no Brasil? Por aqui, uma parcial abertura política foi vivenciada entre 1945 e 1964. O Partido Comunista permanecia ilegal desde 1949, e os muitos jovens, homens e mulheres analfabetos não podiam exercer o voto nas eleições que aconteciam em todos os níveis de governo. Esta uma conseqüência óbvia do retrato da Educação em nosso país, a elitização do ensino, o privilégio das classes abastadas, o fim da escravidão e o não entendimento de cidadania aos negros, mulheres, descendentes indígenas criam um ambiente societário em que grande parcela da população não teve acesso ao direito básico da Educação.
Destaca-se também, no período, a organização e atuação de movimentos populares e a intensa migração, ocasionada pela pobreza, para os grandes centros. Há também fatos históricos e econômicos que queremos recordar com você. Na área econômica, entre 1956 – com a posse de Juscelino Kubitscheck – e 1961, início do curto governo Jânio Quadros /João Goulart, o Brasil viveu a fase principal de seu desenvolvimento, com acentuada participação de capital estrangeiro e ênfase na produção de equipamentos, bens de consumo duráveis e produtos químicos. Pelas ruas brasileiras, passaram a circular os primeiros Volkswagens nacionais e a nova capital, construída no centro do país, iniciava suas atividades. Entretanto, apesar do aumento das oportunidades de emprego, a melhoria das condições sociais da população não se concretizou. Tal situação, contudo, não impediu que determinados setores, inclusive externos, concentrassem grandes lucros. Em conseqüência do rompimento do apoio dado ao governo pelo empresariado e pelas Forças Armadas – sobretudo pela intensificação da participação do capital estrangeiro –, rompeu-se o complicado equilíbrio entre política e economia. Assim, a partir de março de 1964, o golpe de Estado promovido pelos militares, com apoio de segmentos dominantes da sociedade brasileira, alteraria de modo significativo o cotidiano do país, com influência em todos os setores da sociedade, inclusive, como você certamente está imaginando, na área da Educação. Era preciso adequá-la aos novos interesses políticos e econômicos. O gosto da liberdade só voltaria a ser experimentado pela sociedade brasileira em meados dos anos 80.

ANOS 60. O INÍCIO DE UMA LONGA DÉCADA...

Para melhor compreensão dos rumos vividos pela Educação brasileira nesse período, gostaríamos de recordar com você dois importantes aspectos. O primeiro relaciona-se ao fato de que a Educação de Jovens e Adultos já se configurava como preocupação de âmbito mundial, como ficou evidente na Segunda Conferência Internacional de Adultos, ocorrida em Montreal em 1963. Na ocasião, a EJA passou a ser vista como continuação da educação formal, permanente e como educação de base ou comunitária.

O segundo aspecto relaciona-se ao fato de que, apesar das campanhas de erradicação do analfabetismo implantadas nos anos 50, o analfabetismo – de acordo com dados do Anuário Estatístico do Brasil, de 1963 – era realidade para 39,4% da população a partir de 15 anos. O ensino primário era ineficiente; a repetência, alarmante. O secundário continuava elitista e não atendia às expectativas de grande parte da população.

Esse quadro que apresentamos evidencia a semelhança entre a situação atual da educação e a escola oferecida à grande camada popular sem acesso à participação efetiva na vida econômica e social do país. Esta relação de escolha da educação melhor aos mais abastados e a escola com menos possibilidades pedagógicas os menos favorecidos revela a intenção dos governantes brasileiros que construíram historicamente este calamitoso cenário educacional brasileiro.

E isso tudo, em meio ao otimismo político, ao desenvolvimentismo industrial e ao pesado ingresso de capital estrangeiro, com a concentração de riqueza em mãos de poucos. Nesse cenário, a EJA ainda continuava a caracterizar-se por ações desenvolvidas pelos movimentos sociais, pelas igrejas e pelo Governo, sobretudo através das campanhas.


EJA E MOVIMENTOS SOCIAIS

Um elemento fundamental para compreendermos a lógica da educação no Brasil é analisarmos os investimentos feitos na superação desta que talvez seja a maior expressão, o resultado mais aparente da histórica falta de investimento, planejamento, continuidade, coerência... Na educação brasileira que é o Analfabetismo verificado em nossa sociedade. Portanto, trago abaixo um pouco deste histórico. Ainda que o objetivo aqui não seja o estudo de Educação de Jovens e Adultos(EJA), torna-se imperiosa a observação desta característica, esta provavelmente a forma mais expressiva do caos em que se encontra a educação em nosso país.
No período compreendido entre 1946 e 1964, nas iniciativas de alfabetização implantadas pelo Governo Federal, destacam-se vários movimentos de Educação Popular. Com origens diversas, são resultado da intensa atuação da sociedade nos chamados Movimentos de Base, na liderança sindical, na mobilização dos trabalhadores rurais e na efervescência política da juventude estudantil. Momento marcante de nossa História, em que diferentes atores sociais conquistam espaços e aglutinam correntes progressistas compromissadas com a população menos favorecida. Como exemplos desses movimentos que se espalharam por todo o Brasil, podemos apontar teatro de rua, música popular, cordéis, festivais de filmes, jornais populares, artes plásticas, discos e cursos variados, destacando-se ações de alfabetização.
Entretanto, para melhor compreensão, precisamos retornar a 1958, ocasião em que, buscando responder aos resultados insatisfatórios e às críticas, quanto aos efetivos resultados alcançados pelas diferentes campanhas de alfabetização desenvolvidas pelo país, ao longo da década, o Governo Federal realizou , no Rio de Janeiro, o II Congresso Nacional de Educação de Adultos, reunindo entidades públicas e privadas. Foi um evento precedido de vários seminários regionais, que contou com a participação do presidente da República que, dirigindo-se aos presentes, ressaltou o importante papel da Educação de Adultos na solução dos problemas criados pelo desenvolvimento econômico”, promovendo “preparo intensivo, imediato e prático aos que se encontram desarmados dos instrumentos fundamentais” (...) “que a moderna sociedade exige para a completa integração nos seus quadros: a capacidade de ler e escrever, iniciação profissional técnica, além da “compreensão dos valores espirituais, políticos e morais da cultura brasileira (PAIVA, 1987, p. 207). Esse encontro deu oportunidade, ainda, que diversos grupos participantes destacassem preocupações e interesses, no sentido de novas possibilidades de realizar Educação de Jovens e Adultos. E veja: não se pensava apenas em alfabetização. Chamava-se atenção para a importância da possibilidade de que se desse continuidade aos estudos, o que, na prática, acabou por ocasionar a expansão dos Sistemas Supletivos Estaduais.
Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos – CEAA
Um detalhe importante na direção contrária a produção desastrosa quanto ao modelo da educação brasileira é a resistência popular que insiste em tencionar na direção contra-hegemônica. Uma destas resistências que merecem destaque é a luta pela consolidação de um modelo educacional que atenderia também, aos jovens e adultos que saíram, ou nunca tiveram uma participação na vida escolar. A CEAA foi uma ação de cunho governamental, porém esta só ocorre em função das pressões populares nacionais e as pressões internacionais que sugeriam uma atenção para este problema.
Implantada em 1947 e extinta em 1963, foi a primeira grande campanha de massa destinada à Educação de Adultos. Dez anos depois, como desdobramento das estratégias de atendimento ao adulto, e na tentativa de responder às críticas quanto aos resultados reais da alfabetização realizada, anexo à CEAA criou-se o Sistema Rádio Educativo Nacional (Sirena), tendo por objetivo estimular os sistemas rádios educativo regionais. Em 1970, os ministérios das Comunicações e da Educação e Cultura regulamentam o uso gratuito do rádio para programas educativos em todas as emissoras do país. Surge o Projeto Minerva, de radio educação. É interessante destacar que, desde as eleições de 1960, segundo alguns historiadores, já se podia perceber os resultados do ensino elementar e da CEAA, com a expansão do eleitorado em cerca de 50%, aqui revela-se parte da intencionalidade deste processo, ou seja, alfabetizar aqui neste contexto era assinar o seu nome e votar.
Por tudo isso, percebemos, como resultado das críticas ao modelo de “combate” ao analfabetismo jovem e adulto implementado pelo Governo, o surgimento de novas idéias e propostas pedagógicas, consolidando o momento político vivido, então, pelo país.
Um novo paradigma pedagógico (...) cuja referência principal foi o educador pernambucano Paulo Freire “cujo pensamento”, assim como sua proposta para Alfabetização de Jovens e Adultos, inspiraram os principais programas de alfabetização e educação popular que se realizaram (...) no início dos anos 60 (...). Desenvolvendo e aplicando essas novas diretrizes, atuaram os educadores do MEB– Movimento de Educação de Base – , ligado à CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – , dos CPCs – Centros de Cultura Popular, organizados pela UNE– União Nacional dos Estudantes, dos Movimentos de Cultura Popular, que reuniam artistas e intelectuais e tinham apoio de administrações municipais (MEC / AÇÃO EDUCATIVA, 1997, p. 22). De Freire, educador brasileiro que entendia a educação também como ato político.
Retornando aos Movimentos Sociais. Como conseqüência das articulações e das pressões advindas do coletivo de educadores atuantes nesses movimentos, em janeiro de 1964, o Governo Federal dá início ao Programa Nacional de Alfabetização – PNA – cujo objetivo era mobilizar a participação, a cooperação e os serviços de agremiações estudantis, sindicatos profissionais, sociedades de bairro, instituições religiosas, organizações da sociedade civil, organizações militares, associações patronais, o magistério e vários outros setores, para a alfabetização a partir do chamado “método Paulo Freire”. O PNA, contudo, teve vida curta, sendo silenciado pela força das armas. Mais uma vez revela-se a intenção de manipular a educação na direção da hegemonia do governo, aqui neste caso a ditadura militar.

UMA EDUCAÇÃO PARA NOVOS E DUROS TEMPOS

Como você sabe, em conseqüência do golpe de Estado militar ocorrido em março de 1964, toda a sociedade brasileira tornou-se vítima do autoritarismo que, por 21 longos anos, instalou-se no país. A preocupação com “a ordem e a segurança” e o temor do “fantasma do comunismo” levaram de imediato à intervenção em propostas de educação sugeridas e implementadas pelos movimentos populares e instituições públicas e privadas de educação. Na prática, escolas foram invadidas. Professores e estudantes foram presos ou exilados, como também ocorreu a Paulo Freire, que assim como outros intelectuais brasileiros, para escaparem da morte tiveram que fugir para o exterior.
O mesmo destino de extinção fora ampliado aos centros Populares de Cultura (CPCs), pelos Movimentos de Cultura Populares (MCPs) e pelas agremiações de estudantes, vivenciou o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), importante centro de reflexão da cultura brasileira. A respeito da linha político-programática da educação durante a ditadura, Aranha destaca que a intenção explícita de “educar” politicamente a juventude se revela no decreto-lei (...) da junta militar em 1969, que torna o ensino de Educação Moral e Cívica obrigatório nas escolas em todos os graus (...). No final do grau médio, a denominação muda para Organização Social e Política Brasileira – OSPB – e no curso superior, para Estudos de Problemas Brasileiros – EPB (1996, p. 211). Esta era tão falada 5692/71 lei responsável por toda a reformulação do ensino médio durante a ditadura militar.
Como você deve estar lembrado, nas aulas anteriores percebemos que as políticas educacionais definem as concepções dos governantes sobre o que é educar. Por isso, os Programas de Alfabetização de Jovens e Adultos, implantados a partir de então no país, precisavam adequar-se à visão da alfabetização com fins específicos de leitura e escrita – desvinculados de “intenções subversivas de conscientização popular”– e estruturados no assistencialismo e no conservadorismo. Enfim, o golpe militar, concebido por influência e em consonância com os objetivos norte-americanos, atendia aos interesses dos Estados Unidos para a América Latina. O MEC assinou convênio com a Agency for Internacional Development (AID) para a realização de estudos que levassem à reorganização da educação brasileira e de toda a estrutura de ensino. Os acordos MEC–USAID garantiam ao Brasil assistência financeira para a implantação da Reforma Educacional proposta pelos militares, a Lei 5.540/68 – do Ensino Superior – e 5.692/71, a Lei de Diretrizes e Bases, que substituía à anterior e na qual o conceito de educação assentava-se e articulava-se em três pilares: desenvolvimento, segurança e comunidade.

Acesse o Link e prepare-se de verdade.

Entrei Concursos








Leia mais...

30.4.11

Como tudo começou... PARTE I

Aqui neste conjunto de textos, que estou chamando de - COMO TUDO COMEÇOU - PARTE I - pretendo trazer um pouco do histórico da Educação no Brasil. Certamente, que a brevidade deste espaço não me permite aprofundar esta descrição, nem tampouco o aprofundamento acerca das reflexões que aqui surgem. Contudo, creio que este texto possa dar pistas das razões da composição do modelo educacional que ora encontramos no Brasil. Posteriormente darei prossguimento com a Parte II e III.

• INTRODUÇÃO

Como sabemos, um importante fato, dentre muitos, capaz de igualar ou diferenciar homens, é o acesso ao conhecimento. Dessa forma, para que possamos analisar o problema da exclusão social de grande parte da população brasileira, é preciso, como ponto de partida, um olhar sobre o nosso processo histórico. Entre nós, há muito tempo, nega-se ao povo o DIREITO SOCIAL básico de educar-se, principalmente aos jovens e adultos, sobretudo das camadas populares. Ao longo da História do Brasil, surgem medidas de democratização do ensino, configuram-se movimentos em defesa do ensino público, mas, de fato, muito pouco tem sido feito para torná-los efetivos. Nos primeiros tempos, você sabe, de um lado eram os que se proclamavam donos da terra, ligados à exploração dos engenhos; de outro, a maioria dos trabalhadores, submetida ao processo de escravidão. Assim tudo começou.


• A AÇÃO MISSIONÁRIA E EDUCATIVA


No começo era a catequese. Os religiosos da COMPANHIA DE JESUS foram os primeiros responsáveis por uma educação sistemática no país. Fácil imaginar, que o objetivo maior dos jesuítas era o de difundir o Evangelho. Portanto, o primeiro projeto educacional brasileiro não tinha como objetivo a ação de educar. Embora, também ensinassem princípios morais, normas de comportamento e alguns ofícios. Aos poucos, essa ação foi ganhando um contorno mais voltado para a Educação, então esta nova fase foi redesenhada para a educação da classe dominante, representada pelos colonizadores e seus descendentes. Como você vê, o povo estava de fora. A respeito disso, destaca Romanelli (1988, p. 35), “a obra de catequese que, em princípio, constituía o objetivo principal da presença da Companhia de Jesus no Brasil acabou gradativamente cedendo lugar, em importância, à educação da elite”. Mas que tipo de ensino desenvolviam os jesuítas? Ler e escrever, para a maioria da população, e ENSINO HUMANÍSTICO para alguns da classe dominante, ensino esse totalmente afastado da realidade da colônia e seguindo o modelo da cultura européia. É importante destacar que, do início da colonização até 1759, ano da expulsão dos jesuítas, todo o processo educacional e a própria vida social da colônia sofreram pesada influência jesuítica, que persistiu ao longo de nossa História. Associa-se a este modelo o forte traço Pombalino, ou seja, a Educação voltada para as elites brasileiras que dura até hoje tem aqui neste momento histórico um pouco de suas razões. Cabe ressaltar, que esta não é a única razão deste modelo educacional aristocrático, porém este momento de nossa história merece o devido destaque.


• A CORTE CHEGA AO BRASIL

Há um fato interessante em relação ao período compreendido entre a expulsão dos jesuítas (1759) e a chegada de D. João VI (1808)que precisamos destacar. É a REFORMA POMBALINA Reforma Pombalina, de

natureza anticlerical. Essa reforma procurava corrigir o traço formal e religioso do ensino, incluindo o conhecimento científico não aceito pelos jesuítas. Você sabe por que nos lembramos dessa Reforma? Nela não se destaca nenhum avanço na educação popular, e, como se imagina, o processo de exclusão se acentua devido ao fechamento das escolas missionárias. A partir da chegada de D. João VI, começa a se delinear, no Brasil, uma classe média muito atuante, influenciada por correntes de pensamento

ligadas ao LIBERALISMO. Você lembra o que é o liberalismo? Naquele período, essa classe emergente via na escolarização uma forma de se impor e de galgar as posições de mando que a estrutura colonial favorecia. Acentuam-se a estratificação e o distanciamento da imensa classe popular.

A presença da família real forçou a reestruturação social e política do Brasil. Muitas obras públicas, muita movimentação no campo intelectual e muitas benesses para a elite. À grande massa inculta nada se oferecia. Podemos perceber ainda, no período joanino, uma preocupação com o ensino militar e com os cursos superiores. Afinal, era preciso criar a classe dominante, que decidiria o futuro da nação. Dessa forma, nenhuma medida ou ação educativa voltada para os adultos das camadas populares foi, de fato, implementada nesse momento da nossa História. Romanelli, analisando o período, afirma que a preocupação exclusiva com a criação de ensino superior e o abandono total em que ficaram os demais níveis do ensino demonstram claramente, esse objetivo, com o que se acentuou uma tradição que vinha da Colônia – a tradição da educação aristocrática (1988, p. 38).


• INDEPENDÊNCIA OU MORTE – BRASIL IMPÉRIO


(...) E o sol da liberdade
Em raios fúlgidos
Brilhou no céu da pátria
Neste instante. (...)


Fica difícil avaliar o que é ser independente. Afinal, tantos anos depois, nós – e também outras ex-colônias na África e na América Latina – continuamos dependentes de outros países. O tão sonhado “sol da liberdade” continua sendo, para todos, uma meta. Como seria de esperar, após a Independência, as forças políticas se aglutinaram em torno da primeira CONSTITUIÇÃO (1824), que recebeu grande influência européia. Nela, destaca-se que a instrução primária é gratuita e deve ser oferecida a todos os cidadãos; logo, você já concluiu que os adultos também deveriam ser beneficiados. Mas não o foram, como também ficaram excluídos, explicitamente, mulheres e negros. A aplicação da lei foi, portanto, restritiva. Em relação à questão, Haddad e Di Pierro observam que essa distância entre o proclamado e o realizado foi agravada por outros fatores. Em primeiro porque no Império só possuía cidadania uma pequena parcela da população pertencente à elite econômica, à qual se admitia administrar a educação primária como direito, do qual ficavam excluídos negros, indígenas e grande parte das mulheres (2000, p. 109).

Além disso, os autores acrescentam que para completar esse quadro excludente, o Ato Adicional de 1834 deu autonomia às províncias quanto à forma de administrar a educação básica – primária e secundária – em sua jurisdição. O que podemos perceber, então? Transfere-se para quem tem menos recursos a responsabilidade de educar a maioria da população. Era público e notório que faltavam estrutura, bases financeiras e que, principalmente, os professores eram insuficientes. Ribeiro (2000) aponta que, para enfrentar essa carência de professores primários nas províncias, adotou-se o chamado MÉTODO LANCASTER, de influência inglesa. A “vantagem” do método, apregoavam seus defensores, era a de que para cada escola bastava um professor, orientador dos que efetivamente atuavam junto aos alunos em sala de aula, que eram os monitores. Não fica difícil concluir qual era o nível de qualidade desse ensino, não é verdade? Aliás, você deve estar se dando conta de que, em pleno século XXI, ainda temos muitas variações do Método Lancaster. Bem, mas e quanto ao secundário? Essa modalidade atendia um número limitado de alunos, nos chamados liceus provinciais, de caráter PROPEDÊUTICO, que, ao final, acabaram se transformando em preparatórios para exames do curso superior. Novamente verificamos aí uma similitude com o modelo em curso, hoje em nosso país. O governo imperial, para responder aos anseios dos mais aquinhoados financeiramente, estimulava a criação, nas províncias, desses colégios. Insuficientes para atender a demanda, acabaram estimulando o surgimento de cursos e colégios particulares, preparatórios para o ensino superior. Já naquele tempo! Você deve estar curioso e se perguntando: E o ensino profissional? Como seria de esperar, havia certo descaso público e alguma aversão a todo tipo de ensino profissional, sempre destinado aos pobres, aos órfãos e aos pouco escolarizados. Essa visão encontrava apoio em uma sociedade fundada numa ordem social escravocrata.

Uma interessante fonte histórica que traduz a percepção estrangeira quanto ao processo de “ensino de ofício”, destinado pelos senhores de terra aos jovens e adultos escravos, pode ser consultada pela leitura de uma das cartas enviadas por Von Binzer. Preceptora alemã, contratada como professora dos filhos de um abastado proprietário rural, costume comum à época, escreveu, em 1882, a uma amiga na terra natal:

(...) os brasileiros deviam organizar entre seu próprio povo uma classe operária que ainda não possuem, como também criar a classe dos artezãos; alcançariam êsse fim com êxito, se encaminhassem às crianças pretas libertas para exercer um ofício regular. Mas acontece justamente o contrário: a lei de emancipação de 28 de setembro de 1871 determina entre outras coisas aos senhores de escravos que mandem ensinar a ler e a escrever a todas essas crianças. Em todo o Império, porém, não existem talvez nem 10 casas onde essa imposição seja atendida. Nas fazendas sua execução é quase impossível. No interior não há os mestres-escolas rurais como na nossa terra, e assim sendo o fazendeiro ver-se-ia obrigado a mandar selar 20 a 50 animais para levar os pretinhos à vila mais próxima, geralmente muito distante; ou então teriam que manter um professor para essa meninada?...

                                                            (...) mas o fato é que ninguém aqui faz coisa alguma, de  maneira que as crianças nascem livres, mas crescem sem instrução e no futuro estarão no mesmo nível dos selvagens sem gozar nem mesmo das vantagens dos escravos, que aprendem este ou aquele trabalho material. Se já estão livres, por que fazer despesa com êles, esperdiçar dinheiro com quem não dará lucro? (...) não estarão percebendo que, agindo assim, estão preparando a pior geração que se possa imaginar para conviver mais tarde com seus próprios filhos? (BINZER, 1982, p. 102).



Leia mais...

21.4.11

Ipea lança importante estudo sobre analfabetismo no Brasil

Ainda no ano de 2010, mais precisamente no dia 9/12 o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançou em Brasília, o Comunicado do Ipea n° 70: Evolução do analfabetismo e do analfabetismo funcional no Brasil - Período 2004-2009. O referido comunicado traz um diagnóstico da situação do analfabetismo no Brasil, baseado em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios 2009, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD/IBGE). Oportuno conhecer este levantamento, pois a partir de uma análise mais acurada pode-se compreender a quantas anda a Educação no Brasil. Decerto que não será somente a análise deste documento que irá produzir iformações acerca da educação, contudo este sem dúvidas fonece-nos dados que apontam caminhos e delineam a real demanda da educação brasileira, em especial a que diz respeito ao jovens e adultos que romperam laços com a vida regular da escola. Ao tratamos da Educação de Jovens e Adultos(EJA) estaremos incindindo diretamente junto à este público que ora é dissecado nete comunicado.

Aqui encontrarémos, dados que tratam do analfabetismo entre os jovens com 15 anos ou mais, bem como estes dados distribuidos por região, quais os estados que apresntearam as maiores quedas de analfabetismo, dados comparativos por regiõesdo brasil, a média nacional na redução do contingente de analfabetos, informações impactantes e óbvias como o fato da região Sul ter a taxa de analfabetismo mais baixa do país.

Ainda entenderemos o impacto de variaveis como localização de moradia, raça ou cor, sexo, renda, localização de domícilio e a contribuição destas situação na constituição deste quadro.

A idéia é que estes dados contribuam para uma leitura e um conseqüente planejamento na Educação brasileira.
 O link para o documento;


Leia mais...

12.4.11

CONFINTEA - Marco de Ação de Belém

A VI Conferência Internacional de Educação de Adultos - CONFINTEA aconteceu em Belém/Pará de 01 a 04 de dezembro de 2009.
Ao final do evento foi produzido o documento que fica conhecido, como Marco de Ação de Belém,

O Marco de Ação de Belém* constitui peça fundamental no longo processo de mobilização e preparação nacional e internacional, que teve início em 2007e não termina com a sua aprovação no último dia da Sexta Conferência Internacional de Educação de Adultos – CONFINTEA VI, ocorrida em Belém, em dezembro de 2009. O grande desafio posto agora é o de passar da retórica à ação, envidando esforços para que as recomendações apresentadas no Marco de Ação de Belém sejam implementadas nas políticas públicas da educação de jovens e adultos. O esforço que a CONFINTEA VI representa somente se justifica na melhoria de acesso a processos de educação a aprendizagem de jovens e adultos de qualidade e no fortalecimento do direito à educação ao longo da vida para todos.
O Brasil não apenas foi o primeiro país do hemisfério sul a sediar uma CONFINTEA, mas também, junto aos Fóruns Estaduais de Educação de Jovens e Adultos, mobilizou milhares de pessoas em encontros estaduais, regionais e nacional para discutir o estado da arte em educação de jovens e adultos no Brasil, incorporada no documento de base apresentado à UNESCO. As orientações do Marco de Ação de Belém, que incluem várias recomendações do documento brasileiro, oferecem uma diretriz que permite
ampliar o nosso referencial na busca de uma educação de jovens e adultos mais inclusiva e equitativa.
A CONFINTEA frisou que a aprendizagem ao longo da vida constitui “uma filosofia, um marco conceitual e um princípio organizador de todas as formas de educação, baseada em valores inclusivos, emancipatórios,
humanistas e democráticos, sendo abrangente e parte integrante da visão de uma sociedade do conhecimento”. Destacou a sua compreensão da natureza intersetorial e integrada da educação e aprendizagem de jovens e adultos, a relevância social dos processos formais, não formais e informais e a sua
contribuição fundamental para o futuro sustentável do planeta. Ao lançarmos essa publicação em português, lançamos também o desafio aos governos e à sociedade civil, para que trabalhem juntos visando garantir
o direito à educação e à aprendizagem e além, garantir um futuro viável para todos.

André Lázaro                                                                  

Secretário da Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad/MEC)


Vincent Defourny
Representante da
UNESCO no Brasil

Acesse o documento final no Link abaixo;
http://forumeja.org.br/sites/forumeja.org.br/files/miolo_Marco_Belem_port.PDF
Leia mais...

7.4.11

Por dentro do IDEB

Ainda que pairem dúvidas sobre os resultados alcançados pelas escolas no Brasil afora, quanto a forma de realização dos referidos testes, o conteúdo exigido... Assim como a intencionalidade deste levantamento. Faz-se oportuno observar, entender, interpretar os dados e após uma breve leitura destes poderemos de fato, produzir observações mais aprofundadas acerca dos resultados.

Entendendo o que o IDEB:
O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) foi criado em 2007 para medir a qualidade de cada escola e de cada rede de ensino. O indicador é calculado com base no desempenho do estudante em avaliações do Inep e em taxas de aprovação. Assim, para que o Ideb de uma escola ou rede cresça é preciso que o aluno aprenda, não repita o ano e frequente a sala de aula.
Para que pais e responsáveis acompanhem o desempenho da escola de seus filhos, basta verificar o Ideb da instituição, que é apresentado numa escala de zero a dez. Da mesma forma, gestores acompanham o trabalho das secretarias municipais e estaduais pela melhoria da educação.
O índice é medido a cada dois anos e o objetivo é que o país, a partir do alcance das metas municipais e estaduais, tenha nota 6 em 2022 – correspondente à qualidade do ensino em países desenvolvidos.
Veja no Link abaixo, O Mapa da Educação brasileira
De Porto Alegre a Manaus, veja os principais indicadores da qualidade do ensino nas 26 capitais do país

http://educarparacrescer.abril.com.br/hotsite-indicadores/index.shtml



Leia mais...